“Divas”: um espetáculo de excelência musical que celebra grandes vozes femininas com identidade própria
Em um cenário cultural frequentemente marcado por tributos que se limitam à reprodução de repertórios consagrados, o espetáculo Divas, da Tríadi Música, demonstra que homenagear grandes artistas pode ser também um exercício de criação, personalidade artística e refinamento técnico.
A produção apresentada no UCS Teatro não se restringe a revisitar sucessos internacionais de Whitney Houston, Celine Dion, Adele, Beyoncé, Amy Whinehouse, Lady Gaga, Cyndi Lauper, Shania Twain, Taylor Swift, Dua Lipa, ou a brasileiríssima Elis Regina; ela reconstrói esses universos musicais a partir de uma linguagem própria, cuidadosamente elaborada e executada.
Um dos maiores méritos do espetáculo reside justamente na escolha do repertório. A seleção das canções evita soluções fáceis e cria uma narrativa musical capaz de percorrer diferentes épocas, estilos e sensibilidades sem perder a unidade estética. Ao reunir artistas de origens tão distintas, a produção assume um desafio considerável: equilibrar diversidade e coerência. O resultado é uma experiência dinâmica, emocionalmente envolvente e artisticamente consistente.
Fundamental para essa unidade são os arranjos assinados por Johnatan Macedo. Longe de reproduzir versões originais, os arranjos revelam inteligência musical e profundo conhecimento das obras interpretadas. Há um trabalho cuidadoso de adaptação que respeita a identidade de cada canção, ao mesmo tempo em que as integra à proposta estética do espetáculo. O resultado é uma sonoridade sofisticada, que permite ao público redescobrir clássicos sob novas perspectivas, valorizando nuances melódicas, harmônicas e rítmicas frequentemente ocultas nas gravações mais conhecidas.
A excelência musical da montagem é sustentada por um grupo de instrumentistas de altíssimo nível. O guitarrista e diretor musical Johnatan Macedo demonstra versatilidade ao transitar por diferentes linguagens musicais com naturalidade, imprimindo personalidade às interpretações sem excessos. Ao piano, Jackson Macedo exerce papel decisivo na construção das atmosferas sonoras do espetáculo, alternando momentos de delicadeza e intensidade com grande sensibilidade interpretativa. A cozinha rítmica formada por Lucas Chini, no contrabaixo, e Giovane Albarelo, na bateria, oferece sustentação segura e elegante a todo o conjunto, revelando precisão técnica e notável capacidade de diálogo musical.
Entretanto, é impossível falar de Divas sem destacar a performance de Paola Delazzeri. Sua atuação constitui o eixo central da experiência artística proposta pela Tríadi Música. Dotada de uma voz tecnicamente impecável, com afinação rigorosa, excelente controle respiratório e ampla extensão vocal, Paola enfrenta um repertório de elevadíssima exigência sem jamais soar artificial ou excessivamente preocupada com demonstrações de virtuosismo.
O que impressiona não é apenas a capacidade técnica da intérprete, mas sua maturidade artística. Em vez de buscar imitações das cantoras homenageadas — armadilha comum em espetáculos desse gênero —, Paola constrói interpretações próprias, preservando a essência emocional das obras enquanto imprime sua identidade vocal. Sua presença cênica é segura, elegante e comunicativa, estabelecendo uma conexão permanente com a plateia. Em diversos momentos, a cantora consegue transformar canções amplamente conhecidas em experiências renovadas, revelando novos significados e sensibilidades.
A dimensão visual do espetáculo também merece destaque. A cenografia concebida por Felipe Weber, associada ao trabalho de iluminação de Daniela Fracasso e aos recursos audiovisuais do painel de LED, contribui significativamente para a construção da narrativa cênica. Os elementos visuais não competem com a música; ao contrário, ampliam sua potência expressiva. A iluminação revela especial competência na criação de atmosferas distintas para cada momento do espetáculo, alternando dramaticidade, intimismo e celebração com precisão estética.
Outro aspecto digno de elogio é a qualidade da produção como um todo. Percebe-se um cuidado raro com os detalhes técnicos, desde a sonorização até a organização dos elementos cênicos. Cada componente parece ocupar exatamente o lugar necessário para que a música permaneça como protagonista da experiência.
Mais do que um simples tributo às grandes vozes femininas da música popular, Divas afirma-se como um espetáculo autoral em sua concepção artística. A produção demonstra maturidade estética, competência técnica e sensibilidade interpretativa suficientes para transcender o formato de homenagem e alcançar uma identidade própria.
Ao final da apresentação, permanece a sensação de que o público não assistiu apenas a uma sucessão de sucessos consagrados, mas a uma verdadeira celebração da força artística feminina, conduzida por músicos de excelência e por uma intérprete cuja qualidade vocal e expressiva se destaca entre as mais relevantes da cena musical da Serra Gaúcha. Divas é, acima de tudo, um espetáculo que evidencia como talento, estudo e cuidado artístico continuam sendo os ingredientes fundamentais para produzir experiências culturais memoráveis.
Além dos músicos citados não se pode deixar de citar as "pequenas" divas (não tão pequenas assim em voz, afinação e talento) que não deixaram a desejar em suas performances, interpretando o mais novo hit de Taylor Swift, The Fate of Ophelia, beirando à perfeição, mostrando que suas trajetórias são de evolução e aprendizado.
O resultado: Teatro da UCS lotado e satisfeitíssimo!
VERA MARTA REOLON
MTb 16.069
GUILHERME REOLON DE OLIVEIRA
MTb 15.241
Fotos byGuiReOli
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